Maconha, atenção, memória, sono e ansiedade: o que o alívio imediato não conta

Quando o estresse aperta, é compreensível procurar algo que ajude a relaxar. Algumas pessoas encontram essa sensação ao usar maconha. Reconhecer esse alívio faz parte de uma conversa honesta sobre o assunto. Mas sentir-se mais tranquilo por algum tempo não significa que a atenção, a memória, o sono e a ansiedade estejam sendo beneficiados.
Por que pode ficar mais difícil aprender e lembrar?
O THC, principal componente responsável pelos efeitos intoxicantes da maconha, atua em um sistema do cérebro que participa da regulação da memória, do humor e de outras funções. Essa ação pode alterar a maneira como processamos informações. 1
Durante o efeito da substância, pode ficar mais difícil acompanhar uma explicação, manter o foco e guardar informações novas. A chamada memória de trabalho — que permite manter uma informação em mente enquanto fazemos alguma coisa — também pode ser afetada. Pense em ouvir uma orientação e precisar lembrar os primeiros passos enquanto executa os seguintes. 2
Isso ajuda a entender por que alguém pode ter a sensação de “eu ouvi, mas não absorvi”. Esse exemplo ilustra uma possibilidade; não significa que toda dificuldade de aprendizagem seja causada pela maconha.
Uma revisão que reuniu resultados de várias meta-análises encontrou prejuízos cognitivos durante a intoxicação, com evidências especialmente consistentes para aprendizagem e memória verbal. Em algumas condições, alterações também foram observadas depois de passar a sensação de estar sob efeito. A intensidade e a duração variam, e resultados de pessoas com uso frequente não devem ser automaticamente aplicados a quem usa ocasionalmente. 2
Mas, se eu sinto que relaxo, como a ansiedade pode piorar?
A experiência de relaxamento pode ser real. Ainda assim, o THC também pode provocar ansiedade, medo e sensações de ameaça. A resposta depende de fatores como quantidade consumida, concentração de THC e características individuais. Produtos diferentes podem produzir experiências diferentes. 1
Em um experimento controlado com adultos, uma dose menor de THC oral reduziu parte do desconforto após uma situação de estresse, enquanto uma dose maior aumentou sentimentos negativos e ansiedade. Esse resultado ajuda a mostrar que os efeitos podem mudar com a dose; não estabelece uma quantidade segura nem transforma fumar maconha em tratamento para ansiedade. 3
Também existe uma questão para observar na terapia: quando usar uma substância se torna a principal forma de lidar com o desconforto, o alívio imediato pode reforçar a vontade de repetir o comportamento. Essa é uma possibilidade de funcionamento do comportamento, não uma conclusão sobre todas as pessoas que usam maconha.
Vale perguntar: “Além de aliviar agora, essa estratégia está me ajudando a lidar com o que me estressa e a fazer o que é importante para mim?”
E o sono: adormecer mais rápido significa dormir melhor?
Algumas pessoas relatam que a maconha facilita pegar no sono. Mas essa percepção não garante um sono de melhor qualidade. Os estudos sobre os efeitos da cannabis no sono apresentam resultados variados, que dependem da composição, da dose, do padrão de uso e das condições de saúde. Não é correto afirmar que toda pessoa que usa maconha terá o mesmo prejuízo no sono. 7
Um achado mais consistente é que, após interromper o uso regular, algumas pessoas apresentam dificuldade para adormecer e redução do tempo de sono. Isso pode levar à impressão de que precisam voltar a usar para conseguir dormir. Essa dificuldade pode fazer parte da abstinência e merece acompanhamento; não comprova que a substância estava tratando a causa do problema. 7
Dificuldade de atenção significa TDAH?
Não necessariamente. Ansiedade, sono insuficiente, sobrecarga e uso de substâncias precisam ser considerados na investigação de queixas de atenção. O TDAH exige uma avaliação da história de desenvolvimento, dos sintomas em diferentes contextos e dos prejuízos associados.
Usar maconha não confirma nem exclui TDAH. Da mesma forma, ter desatenção e usar maconha não prova que uma coisa seja a causa da outra. Entender quando as dificuldades começaram e como se relacionam com sono, ansiedade e consumo ajuda a construir uma avaliação mais cuidadosa.
Esses efeitos podem melhorar?
Há motivos para evitar conclusões de dano permanente. Em um estudo com jovens que usavam cannabis regularmente, o grupo designado a ficar quatro semanas sem usar apresentou melhora na aprendizagem verbal, principalmente na primeira semana. Não houve benefício específico da abstinência sobre a atenção nesse estudo. Isso sugere possibilidade de melhora de algumas funções, sem garantir o mesmo resultado ou prazo para todas as pessoas. 4
E os medicamentos com canabidiol?
A existência de medicamentos derivados da cannabis não significa que fumar maconha produza os mesmos benefícios. O canabidiol, ou CBD, é diferente do THC e não provoca a mesma intoxicação. Há medicamentos com CBD com eficácia demonstrada para condições específicas, como determinadas síndromes epilépticas. 5
O CBD pode ser extraído da própria planta. Para o uso medicinal, o que importa é a composição e a dose conhecidas, o controle de qualidade, a indicação e o acompanhamento profissional. Algumas formulações medicinais também contêm THC.
Para ansiedade, os estudos com CBD ainda apresentam resultados conflitantes e limitações. Os possíveis benefícios de uma formulação não podem ser transferidos automaticamente ao uso recreativo. E o CBD também pode causar efeitos adversos e interagir com outros medicamentos. 5, 6
Conversar sobre frequência, motivos para usar e efeitos percebidos permite pensar em escolhas mais conscientes. O uso ocasional, por si só, não estabelece dependência. A proposta é compreender o papel da substância na vida de cada pessoa e ampliar as maneiras de cuidar do estresse, da ansiedade e das dificuldades do dia a dia.
Referências
- NATIONAL INSTITUTE ON DRUG ABUSE. Cannabis (Marijuana). Disponível em: https://nida.nih.gov/research-topics/cannabis-marijuana. Consultado em: 20 out. 2026.
- DELLAZIZZO, L. et al. Evidence on the acute and residual neurocognitive effects of cannabis use in adolescents and adults: a systematic meta-review of meta-analyses. Addiction, 2022. DOI: https://doi.org/10.1111/add.15764.
- CHILDS, E.; LUTZ, J. A.; DE WIT, H. Dose-related effects of delta-9-THC on emotional responses to acute psychosocial stress. Drug and Alcohol Dependence, v. 177, p. 136–144, 2017. DOI: https://doi.org/10.1016/j.drugalcdep.2017.03.030.
- SCHUSTER, R. M. et al. One Month of Cannabis Abstinence in Adolescents and Young Adults Is Associated With Improved Memory. Journal of Clinical Psychiatry, v. 79, n. 6, 17m11977, 2018. DOI: https://doi.org/10.4088/JCP.17m11977.
- U.S. FOOD AND DRUG ADMINISTRATION. What You Need to Know About Products Containing Cannabis or Cannabis-derived Compounds, Including CBD. Disponível em: https://www.fda.gov/consumers/consumer-updates/what-you-need-know-and-what-were-working-find-out-about-products-containing-cannabis-or-cannabis. Consultado em: 20 out. 2026.
- DE FARIA COELHO, C. et al. The Impact of Cannabidiol Treatment on Anxiety Disorders: A Systematic Review of Randomized Controlled Clinical Trials. Life, 2024. Texto integral: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11595441/.
- Cannabis and sleep architecture: A systematic review and meta-analysis. Sleep Medicine Reviews, v. 84, 102164, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.smrv.2025.102164.