Por que algumas situações nos afetam tanto? O modelo de diátese-estresse ajuda a entender
Nem sempre o sofrimento psicológico pode ser explicado apenas pelo que está acontecendo agora. Algumas situações encontram vulnerabilidades construídas ao longo da história — e é nessa interação entre pessoa e contexto que o modelo de diátese-estresse se torna especialmente útil.
Duas pessoas podem passar por uma situação muito parecida e reagir de maneiras completamente diferentes. Uma crítica no trabalho, por exemplo, pode ser entendida por alguém apenas como uma correção necessária. Para outra pessoa, aquela mesma situação pode ativar pensamentos como “eu não posso errar”, “eu decepcionei alguém” ou “agora vão perceber que eu não sou boa o suficiente”.
Uma das formas de compreender essa diferença é pelo modelo de diátese-estresse.
A palavra “diátese” se refere a uma vulnerabilidade ou predisposição. Ela pode envolver aspectos biológicos, psicológicos, cognitivos, familiares e experiências anteriores. O “estresse”, por sua vez, diz respeito às situações, condições ou acontecimentos capazes de mobilizar essas vulnerabilidades.
Isso não significa que vulnerabilidade somada a estresse necessariamente produza um transtorno. A ideia é mais cuidadosa: determinadas vulnerabilidades podem aumentar a probabilidade de sofrimento quando encontram certos contextos ou estressores.
Na literatura cognitiva, por exemplo, há evidências de que alguns padrões podem permanecer relativamente pouco evidentes até serem ativados em situações de estresse. Scher, Ingram e Segal discutem esse processo ao tratar da reatividade cognitiva e das diáteses cognitivas na depressão. 1
Podemos pensar em uma pessoa que cresceu em um ambiente em que seus erros eram recebidos com críticas intensas. Isso não significa que ela inevitavelmente desenvolverá perfeccionismo, ansiedade ou qualquer outro quadro psicológico. Mas, em algumas pessoas, experiências assim podem contribuir para a construção de formas mais rígidas de interpretar desempenho, aprovação e fracasso.
Ao longo do tempo, podem surgir regras internas como “eu preciso fazer tudo certo”, “errar significa decepcionar” ou “se eu não fizer muito bem, talvez percebam que eu não sou tão competente quanto pensam”.
Esse tipo de relação também aparece em pesquisas sobre perfeccionismo. Uma meta-análise de Curran e Hill encontrou associações entre expectativas e críticas parentais percebidas e diferentes dimensões do perfeccionismo, especialmente o perfeccionismo socialmente prescrito, relacionado à percepção de que os outros esperam que a pessoa seja perfeita. 2
Agora imagine essa mesma pessoa na vida adulta, trabalhando em um ambiente com alta cobrança, prazos apertados, pouca margem percebida para erros, comparações frequentes e expectativas pouco claras.
Talvez o problema não esteja apenas no trabalho. Mas também não esteja apenas nela. É justamente essa interação que o modelo de diátese-estresse ajuda a compreender.
Uma exigência profissional atual pode encontrar uma vulnerabilidade construída anteriormente e tornar certos pensamentos, emoções e comportamentos mais intensos. A cobrança que, para uma pessoa, significa apenas “preciso corrigir isso” pode, para outra, significar “eu falhei”.
O perfeccionismo também ajuda a ilustrar esse processo. Ele não deve ser confundido simplesmente com gostar de fazer as coisas bem. A literatura diferencia diferentes dimensões do perfeccionismo e mostra que algumas delas podem estar relacionadas ao sofrimento psicológico.
Uma meta-análise de 67 estudos longitudinais, reunindo mais de 20 mil participantes, encontrou evidências de que dimensões do perfeccionismo podem funcionar como fatores de vulnerabilidade para sintomas depressivos. Isso não significa que perfeccionismo leve inevitavelmente à depressão, mas mostra que certos padrões podem participar da forma como uma pessoa responde ao estresse ao longo do tempo. 3
Essa discussão também ajuda a evitar duas simplificações muito comuns.
A primeira é pensar que tudo está “dentro” da pessoa.
A segunda é pensar que o ambiente, sozinho, explica completamente o sofrimento.
Em muitos casos, o que importa é justamente a relação entre os dois.
Uma pessoa pode funcionar de maneira muito diferente dependendo do contexto em que está inserida. Ambientes mais previsíveis, seguros, claros e menos punitivos podem reduzir a ativação de determinados padrões. Já contextos marcados por alta cobrança, instabilidade, críticas constantes ou pouca margem para erro podem intensificá-los.
Ao mesmo tempo, reconhecer uma vulnerabilidade própria não significa concluir que a pessoa precisa aprender a suportar qualquer ambiente. Perceber que um contexto ativa determinado padrão também pode ajudar a identificar limites, necessidades e escolhas que precisam ser feitas.
Por isso, quando uma situação parece produzir uma reação muito intensa ou repetitiva, talvez algumas perguntas sejam úteis:
O que aconteceu objetivamente?
O que eu interpretei a partir disso?
Que pensamento apareceu imediatamente?
Existe alguma regra interna rígida por trás da minha reação?
Estou respondendo apenas ao que está acontecendo agora ou também ao que aprendi em experiências anteriores?
Essas perguntas não servem para transformar toda reação em um problema psicológico. Servem para ajudar a perceber quando certos padrões aparecem repetidamente.
Reconhecer um padrão pode ser um primeiro passo para começar a modificá-lo.
Isso pode envolver pausar antes de reagir automaticamente, questionar exigências internas muito rígidas, aceitar que determinados erros fazem parte da experiência humana, pedir ajuda, estabelecer limites ou buscar apoio psicológico quando esse funcionamento estiver produzindo sofrimento significativo.
Na psicoterapia, investigar não apenas o que aconteceu, mas o significado que aquela situação assumiu para a pessoa pode ajudar a compreender por que determinadas experiências são tão mobilizadoras.
Talvez a pergunta não seja apenas “por que isso me afeta tanto?”, mas também: “o que essa situação encontra na minha história?”. E, depois de compreender isso: “o que posso fazer de diferente quando isso acontece?”
Referências
Os títulos abaixo foram traduzidos para o português para facilitar a leitura. Os links levam às publicações originais.
- SCHER, C. D.; INGRAM, R. E.; SEGAL, Z. V. (2005). Reatividade cognitiva e vulnerabilidade: avaliação empírica da ativação de construtos e das diáteses cognitivas na depressão unipolar. Clinical Psychology Review.
- CURRAN, T.; HILL, A. P. (2022). As percepções dos jovens sobre as expectativas e críticas de seus pais estão aumentando ao longo do tempo: implicações para o perfeccionismo. Psychological Bulletin.
- SMITH, M. M. et al. (2021). O perfeccionismo é um fator de vulnerabilidade para sintomas depressivos, uma consequência dos sintomas depressivos ou ambos? Uma meta-análise de 67 estudos longitudinais. Clinical Psychology Review.
- SMITH, M. M. et al. (2020). Por que o perfeccionismo aumenta o risco de sintomas depressivos? Uma meta-análise sobre o papel mediador do estresse e da desconexão social. Journal of Research in Personality.