Por que algumas mulheres rejeitam o feminismo? Um olhar da Psicologia Social
Identidade, pertencimento e crenças sobre a ordem social ajudam a compreender uma relação que vai além dos benefícios individuais.
Uma mulher pode defender sua autonomia, construir uma carreira e valorizar a participação feminina na vida pública e, ao mesmo tempo, rejeitar o feminismo. Essa combinação provoca uma pergunta: como alguém pode usufruir de transformações para as quais movimentos feministas contribuíram e se opor ao movimento associado a elas?
A pergunta é relevante, mas exige cuidado. Reconhecer a participação histórica de um movimento na ampliação de direitos não obriga ninguém a aderir a ele. Também precisamos distinguir a ausência de identificação com o feminismo, a crítica a determinadas vertentes e a oposição às suas pautas. Reunir todas essas posições sob o mesmo rótulo empobrece a análise.
A Psicologia Social oferece caminhos para investigar essa relação. Suas teorias ajudam a formular hipóteses sobre processos coletivos, sem permitir que deduzamos as motivações de uma pessoa apenas por seu posicionamento.
Ser mulher e identificar-se com o feminismo são experiências diferentes
A Teoria da Identidade Social, desenvolvida por Henri Tajfel e John Turner, examina como o pertencimento a grupos participa da construção de quem somos e de como avaliamos outros grupos. A posição social de alguém e sua identificação subjetiva com um grupo não são equivalentes (Tajfel; Turner, 1979).
Aplicada ao tema deste artigo, essa perspectiva ajuda a compreender que compartilhar a condição de mulher não produz, automaticamente, uma identidade política comum. Uma mesma pessoa pertence a diferentes grupos, e esses pertencimentos podem adquirir pesos distintos em cada contexto.
Como exemplo hipotético, uma mulher pode interpretar o feminismo como incompatível com valores centrais de sua comunidade. Nesse caso, aproximar-se do movimento pode representar, para ela, um afastamento de vínculos importantes. Essa é uma possibilidade de interpretação, que precisaria ser investigada em cada situação.
Por que uma ordem desigual pode parecer legítima?
A Teoria da Justificação do Sistema acrescenta outra perspectiva. Jost, Banaji e Nosek (2004) discutem como as pessoas podem contribuir para legitimar e preservar a ordem social existente, inclusive quando pertencem a grupos desfavorecidos por ela.
Isso ajuda a compreender por que reconhecer uma desigualdade não conduz necessariamente ao desejo de transformá-la. Uma diferença pode ser percebida como injusta, mas também pode receber explicações que a tornem aceitável: seria natural, merecida ou parte de uma organização considerada adequada.
No debate de gênero, essa perspectiva convida a examinar quais crenças tornam determinadas hierarquias legítimas para quem as defende. A teoria oferece uma hipótese explicativa, sem estabelecer que toda mulher contrária ao feminismo esteja necessariamente justificando o sistema.
Quando o elogio também restringe possibilidades
Algumas crenças sobre gênero circulam como elogios. Atribuir às mulheres uma capacidade supostamente natural para cuidar pode parecer uma valorização. O problema aparece quando essa qualidade passa a justificar uma obrigação ou a limitar suas possibilidades de escolha.
Jost e Kay (2005) investigaram experimentalmente como a exposição ao sexismo benevolente e a estereótipos de gênero poderia influenciar a justificação do sistema. Em condições específicas dos estudos, essas exposições aumentaram o apoio à ordem existente.
Os resultados ajudam a discutir como qualidades apresentadas como complementares podem conferir aparência de equilíbrio a relações desiguais. Se aos homens se atribui maior capacidade de decisão e às mulheres maior disposição para o cuidado, uma divisão hierárquica pode parecer apenas uma distribuição harmoniosa de funções.
Valorizar o cuidado e escolher exercê-lo são possibilidades legítimas. A questão surge quando essa escolha se transforma em destino obrigatório para um gênero.
O antifeminismo feminino envolve diferentes fatores
Lin e Noman (2026) apresentam uma síntese de 49 estudos realizados em 23 países. Segundo o resumo publicado pelos autores, a oposição de algumas mulheres ao feminismo envolve fatores como a socialização patriarcal, os benefícios materiais e sociais percebidos em papéis tradicionais e o reforço institucional por meio da religião e de mídias conservadoras.
Os autores também destacam a apropriação neoliberal de discursos feministas, que pode afastar grupos desfavorecidos. Esse ponto é mais específico do que uma simples rejeição à imagem do movimento: chama atenção para formas de apresentar a emancipação que podem não responder às condições concretas de vida de determinadas mulheres.
A síntese indica uma interação entre condicionamentos culturais e incentivos sociais. Isso amplia a discussão para além da suposição de que a oposição decorreria apenas de desconhecimento. Por reunir contextos distintos, porém, ela não permite atribuir a mesma explicação a todas as mulheres nem transferir automaticamente seus resultados para o Brasil.
Sexismo internalizado exige uma análise própria
Bozkur (2020) aborda o sexismo internalizado como o sexismo que mulheres dirigem a si mesmas ou a outras mulheres. Seu estudo desenvolveu uma escala com dimensões como auto-objetificação, desvalorização, impotência internalizada, competição ou diferenciação em relação a outras mulheres e priorização dos homens.
Esse conceito permite investigar a reprodução de crenças que inferiorizam mulheres, mesmo quando expressas por elas próprias. Entretanto, discordar de uma pauta feminista ou rejeitar o rótulo de feminista não constitui, isoladamente, evidência de sexismo internalizado. É necessário examinar o conteúdo das crenças e os contextos em que aparecem. Um posicionamento político, por si só, não autoriza uma conclusão psicológica sobre alguém.
Uma pergunta que amplia o debate
Compreender o antifeminismo feminino exige examinar o que está sendo rejeitado, quais vínculos estão envolvidos e que consequências a pessoa associa à mudança. Também exige avaliar os efeitos das ideias defendidas: elas ampliam as possibilidades de escolha das mulheres ou ajudam a restringi-las?
O reconhecimento de direitos historicamente conquistados pode conviver com a rejeição aos movimentos que contribuíram para eles. Investigar essa relação permite discutir como identidades, crenças e condições sociais participam da formação de posições que, vistas de fora, parecem contraditórias.
Talvez a pergunta mais produtiva seja: o que torna essa posição coerente para quem a sustenta, e quais são seus efeitos sobre a liberdade de outras mulheres?
Referências
BOZKUR, B. Developing Internalized Sexism Scale for Women: A Validity and Reliability Study. International Journal of Eurasian Education and Culture, v. 5, n. 11, p. 1981–2028, 2020. DOI: 10.35826/ijoecc.289.
JOST, J. T.; BANAJI, M. R.; NOSEK, B. A. A decade of system justification theory: Accumulated evidence of conscious and unconscious bolstering of the status quo. Political Psychology, v. 25, n. 6, p. 881–919, 2004. DOI: 10.1111/j.1467-9221.2004.00402.x.
JOST, J. T.; KAY, A. C. Exposure to benevolent sexism and complementary gender stereotypes: Consequences for specific and diffuse forms of system justification. Journal of Personality and Social Psychology, v. 88, n. 3, p. 498–509, 2005. DOI: 10.1037/0022-3514.88.3.498.
LIN, T.; NOMAN, M. Complicit or social conditioning? Analyzing women's antifeminist stances across cultures. Feminism & Psychology, publicação antecipada on-line, 10 jul. 2026. DOI: 10.1177/09593535261461781.
TAJFEL, H.; TURNER, J. C. An integrative theory of intergroup conflict. In: AUSTIN, W. G.; WORCHEL, S. (org.). The social psychology of intergroup relations. Monterey: Brooks/Cole, 1979. p. 33–47.